segunda-feira, 17 de março de 2025

A ultima dose


 

 A Última Dose


 


O cheiro de antisséptico queima minhas narinas, mas já nem noto. Há semanas vivo entre estas paredes brancas do hospital, onde o silêncio é interrompido apenas pelo *bip* monótono dos monitores. Minha mão treme ao ajustar o soro na veia de Ana. Sete anos, olhos cor de mel, pele pálida como papel. Ela dorme agora, encurvada sob o cobertor fino, a respiração um fio prestes a se romper.


— Carlos - interrompe meu silêncio .


A voz de Raúl me atravessa como uma faca. Ele está na porta, impecável no terno cinza, o relógio de ouro cintilando sob a luz fluorescente. Sorri, mas não chega aos meus olhos: Você sabe o que eu quero.Ele diz . 


A proposta dele ecoa na minha cabeça desde ontem: "Um carregamento de morfina desaparecerá do depósito. Você assina o relatório como diretor chefe, e eu entrego o Remicade para a Ana. Simples assim." Simples. A palavra soava como um veneno. O Remicade é a única esperança contra a doença rara que está corroendo as articulações dela. Sem ele, os médicos dão seis meses. Talvez menos.  


Mas Raúl não é um benfeitor. A morfina sumiria para as ruas, para os vícios de adolescentes e pais desesperados. Quantos e quantas "Anas" morreriam de overdose, sufocadas em becos, enquanto a minha respira em um leito esterilizado?  


Minha mão encontra o pingente de prata no bolso — um coração com a inicial da Leonor , minha esposa. Ela morreu num acidente de carro, há quatro anos. "Não deixe a dor te cegar" ela diria. Mas Leonor nunca viu Ana gemer de dor, nunca segurou a mão dela enquanto ela perguntava: "Pai, quando eu vou brincar de novo?"


— Pense rápido: Raúl sussurra, aproximando-se. O estoque do Remicade acaba amanhã. E o hospital não vai priorizar uma criança mesmo sendo filha do diretor, não tem como .  


Sinto o suor escorrer pelas costas. Lembro da noite em que Ana ainda andava. Corríamos no parque, e ela ria ao ser levantada no ar, seus dedinhos grudados nos meus. Agora, esses mesmos dedos estão inchados, retorcidos. Eu faria qualquer coisa.Qualquer coisa? Até condenar outros pais a chorarem seus filhos?  


Raúl entrega-me a caneta. Dou um passo atrás, mas ela pesa como um tijolo.  


— Você não é santo, Carlos, ele ri. Lembra da insulina que você desviou para o velho Silva no ano passado? Isso aqui é igual. Só que… maior.  


O velho Silva. Um diabético sem-teto que eu ajudava às escondidas. Na época, justifiquei: "É só uma ampola." Mas Raúl vira a ferida da minha alma. Ele sabe que minha moral é flexível quando o desespero bate.  


Ana murmura em sono agitado: "Não quero mais injeções, pai…"  


A caneta rola entre meus dedos. Se eu assinar, serei cúmplice. Mas se não o fizer, como explicarei a ela nos últimos dias? "Perdoe-me, eu tentei ser nobre"? Leonor me chamaria de covarde. Ou de herói? Não sei mais.  


— Decida: pressiona Raúl.  


Olho para Ana. Uma lágrima escorre de seu olho fechado. Imagino-a enterrada ao lado da mãe, e meu peito arde. Mas também vejo rostos sem nome, corpos em vielas, famílias destruídas pela droga que eu libertei.  


A caneta toca o papel.  


— Bom garoto: Raúl suspira, aliviado.  


Minha mão para. O relatório está preenchido, exceto pela assinatura: Carlos Menezes. Cinco sílabas que podem salvar ou assassinar.  


Ergo os olhos.  


— E se eu disser não?  


Raúl congela. Seu sorriso desmorona.  


— Então… — ele puxa um frasco do bolso, o Remicade brilhando como diamante líquido — isso aqui vai pelo ralo. E você assistirá. 


Segura o frasco sobre a pia, o dedo prestes a abrir a tampa.  


O coração acelera. Posso saltar, arrancá-lo de suas mãos? Mas ele é mais forte. Mais frio.  


Ana geme.  


- Qualquer escolha. diz Raul.


Aperto o pingente, no bolso, até a pele doer.  


— Então? - Raul tem as têmporas suadas  


Abro a boca para responder.  


 


 




segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

A MORTE - UNIR OU SEPARAR?


Parei para pensar sobre este assunto depois de uma frase de uma amiga: mesmo entendendo a morte parece que nunca estamos preparados “
Desde o Natal do ano passado tive duas perdas muito forte. Na noite do dia 25 de dezembro minha mãe entrou em coma vindo a falecer no princípio de janeiro. E eu estava me recuperando de uma cirurgia muito delicada e foram momentos muito intensos para mim. Logo cinco meses depois faleceu meu tio, que era meu padrinho e como um pai, pois o meu pai eu perdera ainda criança. Talvez estas duas perdas tenham abalado demais toda a família, mas a vida tinha que continuar mesmo fragmentada.
Minha mamãe com o amor que dedicava a todos, e meu tio que era a figura central da família.
Passei o ano todo sem perceber, ou não querendo observar o que estava acontecendo conosco.
Sei que muita família simplesmente se fecha para não olhar muito uns para os outros, para não reavivar lembranças. Neste caso há uma separação, cada um numa ilha de sua própria solidão.
Já estamos perto do Natal de novo e estou fazendo um saldo do que aconteceu conosco.
Meus primos todos estão morando longe e minha tia continua aqui, enfrente de casa.
A minha preocupação com ela é constante e ela comigo também. Dividimos momentos, assistimos novelas juntas e sempre nos ligamos para saber se está tudo bem. Qualquer trabalho novo que ela produz vem logo me mostrar. Estou sempre alerta, mesmo sendo ela uma pessoa independente.
Eu e minha prima mais velha estamos tendo mais contatos, a ponte aérea se abriu para nós duas: temos que cuidar do que restou da nossa família, ela me diz.
Minha relação com meu irmão que era muito difícil, passou a ser mais respeitosa e carinhosa. Mesmo distantes, ligamos um para outro para saber dos filhos e demonstrar saudades.
Talvez algumas pessoas precisem se separar para respirar e vivenciar o luto. Outras começam a olhar em volta e descobrir o que antes não era possível e este olhar se encontra exatamente com o olhar amigo de quem ainda está do seu lado.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

PEIXE GRANDE





Sempre observo pescador...
Amantes do silêncio, e
desejo de pegar peixe
Grande...
Escuto a mesma história,
por vezes...
Os mais solitários,
melhores histórias...
Os mais extrovertidos,
felicidade!
Revoada de pássaros!
Unico som pelo ar.
Nunca aprendi pescar...
Quem sabe um dia,
serei uma pescadora...
Levo um livro, e fico
numa pedra criando
fantasias...
- Sonho de poetisa,
é igual a pescaria -
diz o velho pescador...
Um dia vai sonhar
peixe grande...
E vai contar histórias
de amor...
Sempre que finda
a tarde...
A tristeza do pôr-do-sol
Invade meu coração...
Pescador que volta
do mar...
Que guarda o anzol
Sentado na areia...
Sonhei com alguém
que o mar levou...
Não contei história
de amor...
Continua o silêncio
da noite,
mirando as estrelas,
Lua que brilha...
Preciso aprender a pescar!
Desejar um peixe grande...
Encontrar um amor...
Serei pescadora de sonhos!
Contar histórias de amor...
Jogar a rede, manter
o anzol firme...
Pássaros a me acompanhar!
Mesmo sabendo que o
mar é que está no comando!
Fingir que pesquei peixe grande...
Contar falsas histórias
de amor...
Observar!
                         

sábado, 19 de março de 2011

CORRENTES





Ficaria ali, presa a correntes imaginárias, criadas ao longo do tempo.A noite sombras que nunca seriam definidas e o pio da coruja. Durante o dia, o sol ofuscaria sua visão, e o barulho do mar sempre estaria distante. Sofria sem saber que poderia ser apenas um elo perdido de um outro tipo de corrente. Não a que aprisiona e cega! Mas a que liberta e uni!E o vento continuaria a soprar em seus ouvidos, desalinhar seus cabelos, beijar seus lábios: - Liberte-se!

domingo, 6 de março de 2011

FOI EM VÃO...


Nas minha lágrimas sentidas
Ao fechar os olhos pela última vez...
Penso: Foi em vão e repito Não!
Um tango, um bolero, nossa vida.
Tuas telas, tua criação!
Tua marca marca ficou para sempre...
Teus beijos na minha boca
E a lembrança do amor que colorimos.
Em vão foi eu ter rasgado as tela e
Meu coração...
Espero por ti, oh amado,
Quem sabe construindo um jardim
Para uma nova vida,
uma nova dança
Um novo reencontro...


Criação e Arte é isto, meus amigos, nunca deixar morrer a fúria de amor que bate forte dentro do peito! Acelera este coração pulsante! E temos que espalhar e mostrar o que pode influenciar na mente e no corpo quando você começa a criar...

domingo, 27 de fevereiro de 2011






A única vantagem em ser apunhalada pelas costas é que você continua olhando para frente, sua cabeça erguirda vai mirar o céu - com estrelas ao luar ou ensolarada manhã - e não terá que olhar nos olhos de quem  proferiu o punhal, de costa para seu próprio mal!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

NOS REGISTROS





 Já tinha passado da idade em que seu pai morrera, num acidente de carro.
     Sempre costumava olhar nos registros da autópsia e nos processos. Mesmo sendo um álcoolotra não tinha nenhum teor de álcool no sangue e a culpa fora do outro motorista.
     Sentia saudades de alguém que não conhecia mais, só lembrava de alguns detalhes e risos de crianças.
     Deixava sempre um marejado de lágrimas nos olhos.
     O destino já estava traçado ou ele pensara em alguma coisa no momento final ? Já que era considerado um fardo familiar.
     Nunca saberia...